Avaliação imobiliária abaixo de zero – Parte Final – o trabalho e os encantos do caminho

Eu aceitei o desafio de ir com meu carro, seguindo o pessoal. Eu estava preparada para encarar a estrada, ora de terra, ora de pedregulho, ora com pedras maiores e, principalmente, com bastante barro, devido à chuva do dia anterior.

A cada km, era uma novidade e uma mistura de sentimentos, lembranças da minha infância e adolescência, quando eu morava no sítio e enfrentava quilômetros de estrada de terra. Eu ficava deslumbrada com o relevo, as plantações diferentes, os pomares de maçãs, uma realidade desconhecida para mim.

Embora eu precisasse manter a concentração total no volante, pelo fato de ser uma estrada com muitas curvas, subidas e descidas íngremes, pouca visibilidade e pedras e barro que exigiam todo o cuidado, eu ainda assim conseguia apreciar a paisagem. Impossível não sentir toda a emoção da natureza, os pássaros, as árvores imponentes, as taipas¹, cada detalhe da vegetação e, quanto mais eu me afastava da cidade, mais incrível se tornava o momento.

Chegou um momento em que o Sr. parou o carro e veio em minha direção:

— A senhora agora precisa tomar bastante cuidado, porque vamos subir “aquele” morro e, como a estrada está muito molhada, é só embalar e ir. Eu vou na frente, e a senhora espera um pouco para ir.

Eu só respondi:

— Tudo bem, vou logo em seguida, mas, se eu não aparecer logo, o senhor volta para me socorrer.

Nesse momento, demos muita risada. Claro que eu estava um pouco tensa, mas encarei.

Deu tudo certo! Chegamos ao sítio para eu fazer a vistoria. Lá estavam dois senhores nos aguardando. Deixamos os carros na entrada do sítio e, a partir daí, fomos amassando barro, percorrendo boa parte das terras. Eram declives e aclives, e eu precisava percorrer a área para conhecer as características das terras e fotografar algumas partes.

Fomos caminhando e conversando. Eu ia fazendo perguntas para entender um pouco mais sobre a realidade daquela região rural. Foram mais de duas horas de caminhada, e o cansaço estava pegando, até porque as botas já estavam cheias de barro.

Depois de tirar as fotos necessárias e anotar as informações, me despedi e voltei para a cidade. O Sr. perguntou se precisava me acompanhar, mas eu disse que conseguiria voltar sozinha, e assim fiz.

Esse é um momento mágico. Vistoria feita, informações anotadas, é quando o perito respira aliviado: ufa, essa parte deu tudo certo.

Enquanto eu voltava, já mais tranquila e firme ao volante, apreciei ainda mais cada detalhe do caminho. Houve um momento em que parei o carro e fiz algumas fotos aleatórias: paisagens lindas, araucárias centenárias. Tive o privilégio de ouvir e ver uma gralha-azul. Esse momento foi indescritível: eu ali, sozinha, no meio do nada, extremamente encantada com aquela gralha cantando e, de repente, senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Talvez esteja aí o segredo: o simples provoca coisas inimagináveis.

A avaliação imobiliária é isso: ter responsabilidade, pontualidade com os prazos, profissionalismo e intensidade no trabalho. Aproveitar cada detalhe e olhar além da objetividade.

Aqui encerro a série das crônicas abaixo de zero, certamente uma das melhores experiências da minha vida profissional.

E você? Qual é a sua experiência profissional nas vistorias imobiliárias? Tem alguma história que te marcou? Comente aqui.

Silmara Gottardi

¹ Taipa = Os corredores de taipas em Santa Catarina são monumentos históricos formados por extensos muros de pedras de basalto encaixadas e empilhadas sem argamassa.

Os corredores de taipa (muros de pedra) serviam como limites para o gado, evitando, assim, sua dispersão ao longo da rota. A construção das taipas configura-se como uma técnica simples e de baixo custo. O transporte das pedras para a construção das taipas era feito com a zorra, uma espécie de forquilha sobre a qual as pedras eram levadas de arrasto por bois, mulas ou cavalos.

https://www.alesc.sc.gov.br/especial-reportagem/taipeiro-uma-profissaeo-em-extincaeo

Perdeu as duas primeiras partes desta aventura? Confira aqui:

👉 Avaliação imobiliária abaixo de zero – Parte I: parceria e proposta de honorários

👉 Avaliação imobiliária abaixo de zero – Parte II: conhecendo a região do imóvel avaliando

👉 Avaliação imobiliária abaixo de zero – Parte III: frio intenso, curiosidades e o encontro com o pessoal que me esperava

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