Ondas na encosta – o privilégio de ser perito avaliador

Naquele dia, entre uma mensagem e outra, recebi a de um corretor de imóveis que morava em outro estado. Neto me disse que havia chegado até mim pela indicação do seu professor. Disse-me também que uma cliente sua precisava da avaliação de duas áreas no litoral e me perguntou se eu aceitaria o trabalho.  

Mesmo sem nunca ter ido àquela cidade, eu disse:  

— Sim, ‘pego’. 

Neto enviou-me os documentos necessários para elaboração do orçamento; começava ali uma nova parceria. Desde a primeira conversa, o corretor demostrou ser uma pessoa leal, de grande caráter e comprometido com sua profissão. Um tipo de parceria assim vale muito mais do que o pagamento recebido ao final do trabalho, pois dinheiro vem e vai, mas pessoas de valor estarão sempre ao nosso lado para tornar a nossa vida melhor. 

Dias depois, meu orçamento foi aprovado! Agendamos a vistoria e às cinco horas da manhã do dia combinado já pegava a estrada para aproveitar bem o tempo, pois seriam mais ou menos 4 horas de viagem. Encontrei-me com Neto numa cidade próxima ao imóvel avaliando e lá fomos nós. 

A cidade era bonita, bem cuidada, com ruas estreitas e asfaltadas. Tudo era muito limpo e bem organizado. Atravessamos a avenida principal e fomos rumo à encosta, uma rodovia cheia de curvas, mas com uma vista linda. Havia um relevo bastante acidentado e, como eu estava dirigindo, precisava ficar de olho na estrada. Durante o trajeto, impossível não sentir aquela sensação agradável: o ar puro, a mata, o cheiro bom. Enfim, chegamos à estrada de acesso ao imóvel.  

Como não se encantar com aquele lugar! Se até ali eu já estava admirada, a via de acesso ao imóvel reservava outras surpresas. Era algo magnífico: a estrada de chão, a porteira de madeira por onde tivemos que passar, muitas árvores ao longo do caminho, as folhas caídas ao chão, o cheiro de mato e o barulho das ondas do mar batendo na encosta, um lugar deslumbrante. Dirigi devagar, pois, apesar de bela, era uma estrada estreita, com curvas, subidas e descidas, por isso, todo cuidado era necessário.  

Chegamos ao imóvel e fomos recebidos por um senhor que já nos aguardava e nos acompanhou durante a vistoria. Em meio à exuberância da natureza, comecei a fotografar e anotar tudo sobre aquele lugar. Mesmo com o coração radiante por ver tamanha beleza, mantive a postura profissional, afinal eu estava ali para fazer o meu trabalho. Porém, não pude deixar de pensar como nós, peritos, somos privilegiados por poder desfrutar de lugares tão inusitados.  

Como eram duas áreas muito grandes, eu tive que ser bastante ágil para não perder tempo e fotografar e anotar todas as informações possíveis. Depois de vistoriar as casas e toda parte da encosta, era hora de subir o morro. Nesse momento, Neto me olhou com ar de espanto e questionou:  

— Você vai subir este morro, na mata fechada?  

Eu disse: 

— Sim, porque preciso conhecer as terras e fazer mais fotos.  

Ele desistiu e achou melhor não ir. Então, o senhor que nos acompanhava gentilmente ofereceu-se para ir comigo, afinal ele conhecia cada centímetro daquelas terras. E assim, ele foi na frente abrindo a picada e eu atrás segurando o celular com cuidado para fazer as fotos e atenta a cada passo. 

E mesmo depois de ter acordado de madrugada, dirigido durante quase quatro horas e subido um morro num dia extremamente quente, a satisfação e a alegria de poder estar fazendo o meu trabalho superou qualquer coisa. Vida de perito é assim, inconstante, cheia de emoções. Mesmo estando num lugar bonito, o trabalho muitas vezes é árduo. É preciso estar com calçado e roupa apropriados, deixar o cansaço e a acomodação de lado e seguir em frente. 

E assim mais uma etapa do meu trabalho foi concluída. Agradecemos a gentileza daquele senhor que nos acompanhou, e agora era hora de voltar, deixar o Neto no seu trajeto e retornar para minha casa. Durante o caminho de volta, fiquei relembrando daquele lugar, do som das ondas batendo na encosta e, ao mesmo tempo, já pensando na próxima etapa da avaliação, as pesquisas, os cálculos e todo processo do laudo. Essa é a realidade do trabalho do perito, cada dia um novo lugar, cada avaliação uma descoberta e a certeza de que nunca haverá rotina. 

Silmara Gottardi 

19 comentários em “Ondas na encosta – o privilégio de ser perito avaliador

  1. A Silmara sempre nos emocionando com as suas crônicas sensíveis e que trazem uma narrativa enriquecida de detalhes que mexem com a nossa imaginação e emoção. De fato, o que temos de maior valor são as pessoas de valor que estão sempre ao nosso lado.

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  2. Quão bom é, fazer nosso trabalho com satisfação e aproveitar tdo de bom , que vem no pacote, tornar leve, observar o que nos cerca, e nos fortalecer mentalmente, das belezas, que as vez no dia a dia, passam invisíveis aos nossos olhos, muito linda a tua percepção. Abraço grande.

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  3. Que LINDO relato! Fiquei encantada pela forma que exclamou essa experiência, ao ler, remeteu aos contos de romances, foi o que você deixou transparecer com a paixão que direciona sua profissão! Parabéns!

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    1. Bom dia. Fiquei muito emocionado com os depoimentos da Silmara perante as avaliações,o profissionalismo, a dedicação ão executar o trabalho, quem dera q todos fossem assim, com transparência,honestidade e amor a profissão, parabéns Silmara ótimo exemplo.

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      1. Muito obrigada Janilson! Acredito que o segredo é escolher a profissão pela qual amamos! Problemas todas têm, mas se fazemos algo por obrigação, perde-se a beleza da vida! Grande abraço!

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