Razão x emoção – o ponto de equilíbrio para o perito avaliador

Aquele parecia ser mais um dia comum de trabalho, em que faria a vistoria de um imóvel. Porém, o que ocorreu foi muito além do que simplesmente fotografar uma propriedade e colher informações.

Agendei com a cliente para nos encontrarmos no local logo após o almoço, porque era o horário que ela tinha disponível. Almocei e corri para não me atrasar. Chegando lá, deparei-me não apenas com uma casa, mas com uma verdadeira história de família.

Enquanto visitávamos os espaços, a cliente me contava suas lembranças, e eu fiquei imaginando que ali se passaram décadas de uma vida familiar. Ela narrava com riqueza de detalhes as histórias de cada pedacinho daquele terreno. Falava das árvores frutíferas, das flores, da casa, das escadarias para chegar até a parte dos fundos.

A emoção foi tomando conta: por trás dos óculos da cliente, era fácil perceber as lágrimas brotarem nos olhos e de repente escorrerem pelo seu rosto.

Era lindo de ouvir a cliente contar que aquela fora uma residência cheia de vida, que a existência ali não passou em vão, mas que os anos foram vividos com muita intensidade. E que ela se lembrava com carinho do quanto fora feliz com sua família naquele lugar.

Mas, ela tinha consciência de que agora, depois de tantas décadas, com os pais já bastante idosos e com saúde debilitada, havia chegado a hora de rever algumas questões e uma dessas era a venda do imóvel.

Esse momento é bastante delicado para nós, peritos. Afinal, eu estava diante de um imóvel que tinha uma história de vida. Ali, o meu olhar teria de ser racional, técnico. Eu precisava encontrar o ponto de equilíbrio entre a razão e a emoção. Mas, diante de um cenário desses, fica difícil trabalhar só com a razão. Tive que segurar a emoção, mesmo entendendo perfeitamente o que a cliente estava sentindo.

E assim, com cuidado, expliquei a ela que eu sentia muito respeito pela sua trajetória e a de sua família, e que ela deveria se orgulhar e agradecer por ter tão bonitas lembranças para contar. Porém, ponderei que o meu trabalho é avaliar e chegar a um valor justo de mercado. Tentei expor todo procedimento de uma forma sutil e com o respeito devido.

Nossa missão como peritos é deslumbrante! Diante de tantas emoções, lembranças, vivências, precisamos ter sensibilidade para compreender o cliente e ao mesmo tempo ter sabedoria para explicar a ele que o valor do imóvel é baseado no mercado. Que sejamos ‘humanos’ diante do nosso cliente e diante do nosso trabalho, equilibrando a razão e a emoção.

Silmara Gottardi

2 comentários em “Razão x emoção – o ponto de equilíbrio para o perito avaliador

  1. Realmente interessante…
    Deus abençoe você, o teu trabalho e tua missão. Que Deus continue te capacitando com sabedoria e discernimento. Que sejas um instrumento de Deus em tua profissão! Abraço

    Curtido por 1 pessoa

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