Mãos que falam

Um novo dia de trabalho começou. Luca e eu saímos cedo, dessa vez para fotografar um imóvel distante da cidade. Chegando ao local, fomos muito bem recebidos por um senhor simpático, homem de mãos calejadas, olhar um pouco assustado, voz trêmula, sem saber exatamente como nos explicar a situação, homem humilde, trabalhador, com muitas dúvidas.

Jerônimo mostrou-nos toda a propriedade. Começamos a fotografar e registrar cada detalhe do terreno, dos barracões e das casas; um imóvel rústico, tanto quanto o proprietário. Depois de terminada a vistoria, eu expliquei detalhadamente como seria feito o laudo.

Saindo dali, fomos coletar informações na região. Entramos em uma rua bastante estreita, onde mal passava um carro. Notamos algumas pessoas olhando desconfiadas para o carro, que se locomovia lentamente naquela rua que de repente acabava, sem saída. E agora? O jeito era voltar ainda mais lentamente de ré, pois nem a volta conseguimos fazer naquele beco, não havia como saber quem estava mais apavorado, se nós ou se as pessoas que ali estavam.

 O desconhecido assusta! Por isso, assim que conseguimos, saímos daquele lugar, olhamo-nos, mas não pronunciamos uma única palavra. De repente, o celular tocou, o silêncio enfim foi quebrado e tudo ficou mais tranquilo.

Eu e Luca continuamos em busca de informações. Encontramos um casal de idosos, os dois com aparência de uma saúde frágil, um casal simples e bem-humorado. Contaram-nos sobre a localidade, sobre suas vidas, inclusive pediram que vendêssemos os seus túmulos de um cemitério da região metropolitana, mas Luca explicou que corretor de imóveis faz intermediação somente de imóveis, não de túmulos.

Alguns dias se passaram até que o trabalho ficasse pronto. No dia agendado, eu e Luca fomos entregar o laudo; Jerônimo nos aguardava ansioso. Quando passamos o documento a suas mãos, aquele senhor, com toda sua simplicidade, lançou-nos um olhar e pediu que explicássemos melhor porque ele não havia entendido muito bem.

Na realidade, Jerônimo mal sabia ler, era uma pessoa com dificuldades de leitura; desde cedo teve que trabalhar, um brasileiro que ainda criança precisou pegar no pesado para ajudar no sustento da família. Então, eu passei cada folha do laudo explicando a ele o trabalho. Ele olhava o documento, olhava para mim e balançava a cabeça, insinuando que estava entendendo. Ao final, eu disse que o nosso trabalho não terminava ali, e que se o advogado ou o juiz o chamasse e ele sentisse insegurança, poderia nos chamar que iríamos orientá-lo.

Depois de tudo esclarecido, Jerônimo fez o pagamento; em meio a toda aquela humildade, simplicidade, uma vida sacrificada para sustentar a família, tendo que a cada dia contar as economias para ver se podia pôr um prato de comida na mesa.

Foi então que o cliente fez algo que mexeu comigo: colocou nota em cima de nota e pagou integralmente o combinado.

Naquele momento, eu senti um aperto no coração. Durante alguns segundos, vieram-me pensamentos sobre o quão difícil era a vida daquele homem. De imediato, eu pensei: ‘meu Deus, esse homem precisa mais do que eu’. A vontade era de devolver o dinheiro e agradecer por tamanha honestidade. Ali estava o exemplo de que ainda existem pessoas íntegras, com ou sem dinheiro. Aquele homem provou sua dignidade, uma pessoa que sempre batalhou e honrou com seus compromissos.

Eu peguei o pagamento daquelas mãos trêmulas, mãos honestas, mãos que falam. De alguém que, na sua simplicidade, sustentou uma família com dignidade.

Ao mesmo tempo, eu sabia que, mesmo vivendo essa situação, o dinheiro era fruto do meu trabalho e do trabalho do meu parceiro, trabalho também honesto e digno. Durante o longo aperto de mão, não pude conter a emoção. Ao entrar no carro, lágrimas caíram sobre meu rosto e tive a certeza de que esse era um cliente que ficaria para sempre gravado em minha memória.

Silmara Gottardi

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