Saudade da infância – uma história de família

Assim como todos os dias, eu fui ao trabalho, na certeza de que Deus me abençoaria com algo positivo. No escritório, em meio a uma conversa e outra, Luca recebeu um telefonema: era um cliente solicitando avaliação de um grande terreno em uma região tradicional da cidade. E lá fomos nós: máquina fotográfica, prancheta e caneta em mãos. Isso é o básico para o nosso trabalho, mas sei que o fundamental é o bom humor e também uma boa comunicação, pois nunca sabemos o perfil de cliente que encontraremos.

Chegando ao imóvel, três irmãos nos aguardavam: Genoveva, Antônio e Francesco*. Eles nos mostraram não somente a área a ser avaliada, mas uma “história de família”, de uma tradicional família italiana; toda uma vida contada em detalhes. Os pais eram falecidos, os três irmãos com idade avançada. Cada um, porém, trazia na memória a lembrança da vida em família naquele lugar.

Com lágrimas nos olhos e sempre agitando as mãos – os italianos falam muito com gestos –, Genoveva apontava para cada canto da área, contando-nos sobre suas brincadeiras com os irmãos quando ainda eram crianças, suas peraltices, o balanço que o pai fez, as árvores que eles escalavam, as frutas que comiam direto no pé – sem descascar e sem lavar –, as festas em família. Antônio comentou sobre tantos Natais e Páscoas que ali passaram, a ansiedade a tomar conta quando se aproximavam essas datas. Eram momentos em que a família se reunia e preparava variedades de comidas, bolos, doces, carnes, tantas guloseimas.

Francesco falou da época em que fabricavam vinho. Sim! Como não poderia deixar de ser, havia um parreiral no terreno, agora sem muita vida, descuidado, pois, conforme ponderaram, na correria deste mundo moderno e com a idade chegando, não sobra tempo nem disposição para cuidar.

Eu e Luca ouvíamos tudo com atenção e indisfarçada emoção. Evidentemente, aquela área era a vida deles. Caminhamos mais um pouco e dentre tantas coisas algo me chamou a atenção: um poço. Há quanto tanto tempo eu não via um poço!?

Confesso que aquelas histórias me envolveram; não há neutralidade técnica que resista a uma história dessas, tão real e tocante. Como ser indiferente diante desse relato? Afinal, cada um de nós traz uma história de vida em seu coração e eu estava ali diante de três senhores de idade avançada, rostos franzidos, vozes suaves, contando emocionados como haviam sido felizes naquele local.

Quando estávamos saindo, Genoveva nos chamou e nos deu duas mudas de flor, uma para mim e outra para Luca. Achei aquele um gesto lindo, uma demonstração de carinho. Saímos dali carregados de ternura. Até hoje, cultivamos as flores, Luca no escritório e eu em casa. Sempre que olho para a flor, lembro-me daquela avaliação que fizemos.

Certamente, essa foi muito mais que uma simples vistoria, foi uma experiência única. Uma história incrível, de uma família com tantas memórias e lembranças bonitas, e que nos fez refletir que ser perito avaliador não é somente saber avaliar um imóvel, é saber ouvir o que o cliente tem a falar; é ser profissional, mas, acima de tudo, é ser humano, respeitando cada pessoa, cada gesto e sempre com uma boa dose de sensibilidade.

Silmara Gottardi


NOTA*: quero dividir com vocês minhas experiências profissionais como corretora de imóveis e perita avaliadora e farei isso contando minhas vivências em forma de crônicas. Essa e outras histórias que aqui contarei são reais, de experiências que vivo diariamente, somente os nomes dos personagens serão fictícios, em respeito ao sigilo absoluto sobre qualquer informação dos clientes. Meus parceiros de trabalho também terão nomes fictícios. Toda semana, publicarei uma história diferente, será um pouco do meu trabalho e tenho certeza que vocês se identificarão com alguma história.

4 comentários em “Saudade da infância – uma história de família

  1. Que bom quando um profissional consegue colocar amor e comprometimento naquilo que faz.É o que vejo esinto em você,Silmara:pura energia! Parabéns! Maravilhoso ler seus relatos! Maravilhoso saberque saem da alma. Grande abraço!

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