Amigo não se deixa para depois

A profissão de corretor de imóveis é muito mais ampla do que se pode imaginar, há um vasto campo de trabalho. Por isso, exige muita atenção, dedicação, estudo e muitas vezes parcerias, pois nem sempre damos conta de tudo. E temos que nos virar para atender bem, para que nosso trabalho seja diferenciado.

Em uma das inúmeras avaliações, fiz meu trabalho normalmente. Um tempo depois, o cliente deixou o apartamento para eu trabalhar a venda. Eu resolvi fazer uma limpeza geral, pois o imóvel estava bem sujo e eu queria deixá-lo apresentável para mostrar aos clientes.

Então, um dia acordei bem cedo, peguei o material de limpeza e fui ao apartamento. Havia muito serviço pela frente. Chegando lá, coloquei uma roupa bem confortável e comecei o trabalho. Tudo estava tão sujo que de imediato fiquei um pouco apavorada, sem saber exatamente por onde começar. Comecei pelos banheiros e, como precisava ser uma limpeza geral, fui subindo a escada, lavando as partes de cima. Sobe escada, desce escada, sobe escada, desce escada e assim fiz a limpeza necessária.

Por volta das 10h, fui surpreendida pelo toque do meu celular, demorei para achá-lo, em meio aos produtos de limpeza, baldes, panos, vassoura e rodinho. Eu estava em cima da escada lavando uma janela, desci rapidamente para encontrar o celular e atendê-lo. Era uma amiga minha, não qualquer amiga, uma pessoa especial, alguém que faz parte da minha vida. Ela estava ofegante, nervosa e falava muito rápido, pedi para se acalmar e repetir tudo. Foi então que ela falou mais pausadamente, explicou que estava no supermercado e que precisava de mim.

Seu marido, que também era muito amigo, estava doente, um câncer  judiava dele e isso fazia toda a família sofrer. Ver amigos sofrendo dói a alma e o coração, por mais que a gente tente acolher, não é fácil ver a situação. Ela e o marido estavam no supermercado e houve um problema no carro; minha amiga me falava quase chorando: preciso de você!

Eu ali, imóvel, sem saber o que fazer, o que responder. Como explicar que eu estava longe do lugar, numa situação complicada para poder sair do meu serviço? Porque eu precisava terminar naquele dia, devido aos outros compromissos.

Em um segundo, milhares de pensamentos surgiram. Talvez o mais racional fosse pedir para ela chamar outra pessoa ou um táxi. Mas, como ser racional num momento desses? Como não agir com o coração?! Foi aí que me veio uma frase, que ouvi de uma pessoa e me marcou: “As coisas importantes podemos deixar para depois, mas os amigos não, os amigos são agora!”.

Nem pensei mais, desliguei o telefone, troquei a roupa, me ajeitei, fechei o apartamento e peguei o elevador. Quando tudo parecia indo bem, o elevador travou! E eu fiquei ali, mais uma vez imóvel, e nada do elevador descer. Para uma pessoa comum, pode ser algo normal, mas para alguém que tem medo de ficar presa, isso é uma tortura. Mas eu queria tanto ajudar meus amigos, que até esqueci que tenho muito medo, ou tinha muito medo de ficar presa no elevador.

Como não havia outra opção, fiz uma prece e pedi a Deus que me desse tranquilidade e sabedoria. Eu não podia entrar em pânico. Sentei-me no chão do elevador e fiquei ali tentando manter a calma. Foi então que vi uns botões diferentes e apertei a campainha. Consegui ajuda com o porteiro do prédio, ele me socorreu, eu mal o agradeci e saí correndo para ajudar meus amigos.

Lá estavam os dois me aguardando, ele bem debilitado, mas firme e vivendo como podia. Levei-os para casa e voltei para o apartamento; eu tinha que terminar o serviço. Consegui continuar, mas foi um resto de dia difícil, pois eu ficava me lembrando de tudo. Cheguei à conclusão de que eu ‘perdi’ pouco mais de duas horas do meu trabalho para dar uma assistência, mas e o meu amigo que estava ali, debilitado e certamente daria tudo para ter a minha saúde e ‘perder’ semanas ajudando os outros.

Esse fato marcou minha vida e me fez repensar muitas coisas. Enquanto eu estou na correria  do trabalho, com tantos compromissos e tantas coisas para fazer, alguém está numa cama de hospital só querendo uns dias a mais para viver.

Poucos meses depois meu amigo faleceu. Foi uma amizade de curta data, porém de grande intensidade. Ficou a lembrança de lindos momentos e a certeza de que o SER é definitivamente muito mais importante do que o TER.

Silmara Gottardi

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