O Medo

Era um dia como qualquer outro, a rotina de trabalho estendia-se desde o início da manhã. Porém, dentre tantas ligações, surgiu uma bastante inusitada.

O cliente queria avaliar um imóvel na região metropolitana. Luca tentou marcar para o dia seguinte, pois já passava do horário do almoço e o local era distante, mas o cliente precisava agendar para aquele dia. Então, diante da insistência do ansioso cliente, eu e Luca resolvemos ir.

Aquela, que seria uma tarde corriqueira, ia tomando um formato incomum. As nuvens, que antes eram poucas, agora começavam a se avolumar e o tempo ia se fechando a cada quilômetro percorrido. A cidade ia ficando cada vez mais distante, até que finalmente chegamos ao destino. Mas, ao encontrarmos o cliente no endereço combinado, esse nos informou que o local da avaliação era outro, e se propôs a nos levar lá. Seriam mais 35 quilômetros e em estrada de chão. Eu e Luca nos olhamos desconfiados. Naquele momento, a chuva já caía sem dó e começaram os trovões, tantos que chegavam a amedrontar.

Pegamos a estrada. De início, a conversa fluiu naturalmente. O cliente ensinava o caminho e Luca dirigia com cuidado, pois era uma estrada cheia de curvas, pedras, buracos e a chuva que não dava trégua. Os 35 quilômetros transformaram-se em uma distância sem fim; a cada quilômetro percorrido, a estrada parecia mais e mais assustadora. A noite ia chegando e nós três não chegávamos ao imóvel para fotografar. Eu estava no banco de trás, fui a primeira a me calar.

O medo me deixou preocupada, tanto que mandei uma mensagem pelo celular para Sara, nossa colega de trabalho. Fui bem : “Estamos no meio do nada, não há sinal de vida por aqui; somos nós três e a chuva, nada mais. Está escurecendo, talvez fiquemos sem sinal de celular”.

De repente, o silêncio tomou conta. O olhar preocupado de Luca refletia-se no espelho, o cliente estava quieto e o único barulho naquele momento era o do limpador de para-brisa. Nós três ali, sem proferir uma palavra, uma única estrada, a cada quilômetro um frio na barriga, o que dizer? O celular já estava sem sinal. Luca e eu, ainda que silenciosamente, apegamo-nos em nossa fé na Divina Providência, afinal nunca tínhamos visto o cliente e a situação era delicada. Não sabíamos exatamente onde iríamos parar, a única coisa a fazer era seguir as instruções do cliente, que às vezes eram desnecessárias, já que só havia uma única estrada.

O silêncio foi quebrado quando o cliente disse: “Estamos chegando”. Deu algumas instruções e finalmente, para minha tranquilidade e a de Luca, o imóvel foi avistado. Tudo ficou mais leve! Eu respirei com alívio e meu coração voltou a bater normalmente, percebi claramente que Luca estava tranquilo também. Com o olhar, ele me disse: é só mais um cliente, está tudo certo, estamos bem.

A noite já ia caindo. Corremos para fotografar a propriedade antes que escurecesse totalmente. A chuva diminuiu, só uns pingos ralos, mas naquele momento isso não importava, pois nós dois só queríamos tirar as fotos, anotar a descrição e voltar para casa. Fizemos tudo o mais rápido possível. No final, tivemos que usar lanternas para poder fotografar o interior do imóvel. Assim que terminamos, a escuridão já tomava conta do lugar. Voltamos para o carro e retornamos pela estrada.

Depois que deixamos o cliente, eu e Luca nos entreolhamos e rimos, rimos por muito tempo, rimos do medo que sentimos. Todo medo acabou virando algo engraçado. Retornamos bem e no outro dia já estávamos prontos para um novo trabalho.

Silmara Gottardi

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