O cliente desconfiado – experiências na vida de um corretor

Certo dia, recebi ligação de um corretor de imóveis sobre uma chácara. Ele me passou o cliente que estava interessado e eu o atendi de imediato. Agendamos uma visita à chácara no sábado pela manhã. Combinamos de nos encontrar no centro da cidade vizinha, para de lá partirmos juntos até o imóvel.

No dia e hora marcados, cheguei ao local combinado. Era um dia de sol, céu limpo, tempo quente, realmente um belo dia! Logo, o corretor apareceu e ficamos aguardando o cliente. Não demorou muito e o cliente chegou acompanhado de sua mãe. Conversamos um pouco sobre o clima, assuntos corriqueiros e logo tocamos no assunto da chácara.

O corretor responsável pelo imóvel, o único que conhecia o local, comentou que havia ido preparado com botas, sacos plásticos e um facão no carro, pois, segundo ele, para andar no mato são necessários alguns cuidados. E partimos! O cliente foi no próprio carro com sua mãe, e eu fui de carona com o corretor, mas sentada no banco de trás. Afinal, em tempos de pandemia é preciso tomar todos os cuidados: manter o distanciamento, usar máscara e álcool gel, etc.

Na estrada, o cliente ia nos seguindo. Andamos um pouco no asfalto e logo começou a estrada de chão, com buracos, curvas e o mato ao redor. Depois de uns 40 minutos mais ou menos, estávamos quase chegando à chácara. Porém, havíamos perdido de vista o cliente. Como aquela parte da estrada era bastante íngreme e em curva, o corretor resolveu parar e aguardar.

Descemos do carro e eu tentei ligar, mas não havia sinal de celular. Começamos a ficar preocupados, pois ele estava o tempo todo atrás de nós e de repente havia desaparecido. Achamos muito estranho e chegamos a pensar que ele pudesse ter tido algum problema. Resolvemos então voltar pelo mesmo caminho para tentar encontrá-lo.

Finalmente consegui sinal e liguei para o cliente. Ele atendeu e simplesmente me disse que achou o lugar muito distante do asfalto e resolveu voltar, nada mais. Eu e o corretor retornamos para a cidade um pouco frustrados e chateados, porque havíamos mostrado ao cliente no mapa aéreo a localização e a metragem do lugar, ou seja, ele sabia da distância. Mas, tudo bem!

Despedi-me do corretor e voltei para casa. Pouco tempo depois, o cliente entrou em contato e eu pensei: “que bom, agora ele vai se explicar e se desculpar, afinal eu e o meu colega nos dedicamos e ele nos deixou lá plantados”. Mas para minha surpresa, ele estava bastante nervoso e alterado e já foi disparando:

— Você pensou que iria me enganar? Achou que eu e minha mãe iríamos cair na sua armadilha?

Fiquei espantada com aquela conversa. Perguntei se ele estava bem, mas o cliente voltou a falar de forma alterada:

— Vou agora mesmo à delegacia fazer uma denúncia contra você e seu colega!  

Nesse momento, me assustei e perguntei novamente:

— Você está se sentido bem? O que houve?

Mas o cliente continuava alterado, bravo, convicto, afirmando que iria nos denunciar. Foi então que pedi para ele se acalmar e explicar o que estava acontecendo. Eu mal pude acreditar nas suas palavras:

—  Vocês queriam levar eu minha mãe para uma emboscada, não é mesmo?! Ouvi muito bem quando o seu colega comentou que tinha um facão e sacos plásticos no carro. Ali eu já achei tudo muito estranho! E depois nós andamos quilômetros e ‘nunca’ chegávamos na tal chácara! E vi no GPS que era uma estrada sem saída! Estou indo agora mesmo até uma delegacia denunciar vocês!!

A situação ficou muito tensa, mas respirei fundo e consegui falar calmamente:

— Você pode ligar para a imobiliária e pedir informações sobre mim e meu colega, pois eu não tenho nada a temer. Eu só estava lá para mostrar a chácara e nada mais.

Ainda bem que o cliente me ouviu e fez isso antes de ir para a delegacia. Alguns minutos depois, ele só me mandou uma mensagem:

— Me desculpe, já falei com a imobiliária!

O que dizer depois de viver essa experiência?? Mil coisas passaram pela minha cabeça! Uma vontade de gargalhar, mas ao mesmo tempo o receio de que o cliente resolvesse fazer um boletim de ocorrência e eu tivesse que me defender. Já passei por muitas coisas durante as vistorias, mas o cliente achar que eu lhe faria algum mal foi a primeira vez!

Pensando em todo o contexto: o comentário sobre o facão e os sacos plásticos, nós usando máscaras, o local distante, a estrada sem saída e no meio do mato, o fato de não nos conhecermos, tudo isso deve ter levado o cliente a fantasiar aquela situação.

A conclusão que tiro disso é que mesmo sendo adultos nossa imaginação pode voar longe, e as aparências muitas vezes enganam. Julgar alguém é fácil, mas é preciso ter cuidado para não se cometer nenhuma injustiça, pois um julgamento precipitado pode prejudicar e muito outra pessoa.

Silmara Gottardi

6 comentários em “O cliente desconfiado – experiências na vida de um corretor

  1. Que loucura colega mas esta complicado mesmo pois com esse negócio de máscara e óculos, eu nunca mais fui mostrar sizinha nenhum imovel mesmo em carros diferentes e dentro da cidade.

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