Um som nostálgico: avaliação imobiliária tem disso

Uma das coisas mais incríveis no trabalho das avaliações de imóveis é o improvável. Isso significa que, do nada, aparece um cliente de qualquer região pedindo um orçamento para avaliar um imóvel. Nem sempre a proposta é aceita e isso faz parte do dia a dia. O perito deve saber lidar com os “nãos” e agradecer pelos “sins”.

Enquanto eu e meu colega de trabalho saíamos da vistoria de um imóvel, ele recebeu a ligação de um cliente para avaliar um terreno com edificação. A ideia era colocar o imóvel à venda, mas, para isso, era preciso saber o valor de mercado.

Imediatamente, fomos atender o senhor Freitas. Chegando lá, me surpreendi: era um senhor de cabelos ralos e brancos, voz firme; a idade avançada o limitava um pouco para caminhar e subir escadas, mas não lhe tirava o brilho nos olhos. Aos 87 anos, permanecia firme no escritório do galpão, trabalhando, claro, em um ritmo menor do que na juventude. O prazer pelo trabalho e por estar ali todos os dias o fazia livre e feliz.

A alegria e o bom humor do senhor Freitas me fizeram sair um pouco do foco do trabalho. Estávamos ali para ouvi-lo sobre o imóvel e analisar a documentação e toda a estrutura física; porém, as histórias contadas com tanto entusiasmo me faziam viajar no tempo, como quando lemos um livro e imaginamos a cena e cada detalhe.

O escritório era simples, muito simples: duas mesas antigas de madeira, dois armários de madeira com vidro e uma mesinha que o senhor Freitas fez questão de dizer que ele mesmo havia feito, toda encaixada, muito antiga e forte. Ele fez questão de desmontá-la, mesmo com certa dificuldade: mãos trêmulas, forças já escassas. Mas ali estava um pouco da vida dele, e fazia questão de nos mostrar cada detalhe.

No canto do escritório havia uma espécie de aquecedor a lenha. Como naquele dia estava muito frio, a lenha queimava sem parar e, assim, mantinha o ambiente aquecido. Ele dizia que, dessa forma, o escritório ficava quentinho e podia trabalhar melhor.

Não bastassem as histórias e a conversa sobre o imóvel, o senhor Freitas fez questão de nos mostrar cada detalhe do lugar e nos disse:
— Agora vou mostrar para vocês uma coisa que eu não vendo, não dou e não empresto para ninguém.

Eu e meu colega nos entreolhamos, imaginando o que poderia ser essa surpresa tão especial que ele ia nos apresentar.

Chegando aos fundos do galpão, em uma espécie de “puxadinho”, estava a relíquia do senhor Freitas: uma caminhonete do ano de 1973, quase toda original. Ficamos impressionados com o cuidado e o orgulho daquele senhor ao nos apresentar o automóvel raro.

Não satisfeito apenas em nos mostrar, ele perguntou:
— Vocês querem ouvir o som do motor?

E como dizer não? Ali, parecia um jovem rapaz com seu primeiro carro, querendo nos mostrar cada detalhe. Ele entrou na caminhonete e, de repente, ligou. O barulho do motor acabou sendo uma volta ao passado para mim, porque meu avô tinha uma caminhonete daquelas, mesmo modelo, só a cor era diferente. A partir daquele momento, eu não sei se o senhor Freitas ou eu estávamos mais felizes, tomados por um saudosismo que quase se transformou em lágrimas.

Por isso, eu sempre digo que avaliação imobiliária é muito mais do que chegar ao valor do metro quadrado. É muito mais do que cálculos puros e frios, mais do que vistoria, elaboração do laudo e entrega do trabalho. Avaliação imobiliária é viver uma história a cada dia, é ouvir, é aprender com a experiência de cada um.

E assim, vivi mais uma experiência incrível como perita avaliadora imobiliária!
E você, já passou por momentos assim em uma vistoria? Como foi?

Silmara Gottardi

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